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Faça skincare mas não esqueça o porque

  • Foto do escritor: Marina Soncini
    Marina Soncini
  • 7 de jun. de 2021
  • 4 min de leitura

Atualizado: 22 de ago. de 2023


Eu, particularmente, sou uma fã do skincare. Hidratantes, sérum para a pele oleosa, solução para pele sensível, e sim, anti-idade. Mesmo sendo uma defensora da libertação feminina da padronização feroz imposta pela indústria da beleza e exaltadora dos corpos e rostos naturais e cotidianos, eu sou uma das milhares de mulheres que gastam um pouco do seu dinheiro de todo mês testando algum produto – vegano – que melhore ou previna alguma coisa.


Crescemos em uma sociedade patriarcal e machista e isso não é mais novidade para ninguém. Tendo passado boa parte da vida tentando mascarar as celulites e se achando gorda mesmo sendo magra, hoje grande parte das mulheres que conheço da minha geração já tem alguma noção, mesmo que pequena, de que se sentiam assim quando mais novas devido aos padrões inalcançáveis de beleza que nos foram impostos por todos os meios possíveis.


Entretanto, anos de mutilação ao próprio corpo não vão embora como a cerveja barata da noite anterior: pela descarga no dia seguinte. Na minha realidade, tão difícil quanto é me aceitar fisicamente como sou, é aceitar que as marcas de uma criação machista vão estar sempre comigo, e que deslizes vão acontecer. Para uma mulher nascida lá pelos anos 90, que acompanhou a crescida tecnológica e o crescimento do feminismo no Brasil, acho importante entender os porquês.


Entenda o porquê de você as vezes se sentir mal consigo mesma, ou de não querer que rugas apareçam no meio das suas sobrancelhas. Entenda que quilos a mais ou a menos na balança não te definem, mas não se sinta culpada se pensar ao contrário. Entenda que você não precisa ser jovem para sempre, porque envelhecer faz parte da vida, e que a beleza não é limitada aos 20 e poucos anos. Perceba que as insatisfações físicas que você tem consigo mesma vieram todas do mesmo local, que é de fora. Você foi ensinada a ser assim e compreender esses porquês é o pequeno primeiro passo. Você não quer ser mais magra porque se sente melhor dessa forma e porque você é assim, você quer ser mais magra porque a sociedade só te ensinou a se sentir bem sendo magra e essa foi a única forma que você aprendeu de ser alguém dentro desse meio.


Poucas mulheres foram criadas para se amar e respeitar os próprios ciclos, porque isso, convenhamos, não dá dinheiro a quem quer mais dinheiro. A indústria da moda, da beleza, da saúde, a farmacêutica e tantas outras acharam no ódio feminino ao próprio corpo não só um modo de ganhar muito dinheiro, como também um modo de silenciar e fazer as mulheres se esquecerem do potencial delas mesmas, além de, de quebra, nos distanciar uma das outras e nos fazerem perder força. Tudo conspira para uma vida blindada por medos e dores escondidas onde nossa aparência física contaria mais do que qualquer outra coisa. Graças a Deusa, o feminismo salva.


Os porquês de grande parte (ou todas?) das questões anteriores e de várias outras é esse: é sim culpa patriarcado. Ele impôs sorrateiramente dentro de nossas mentes ainda tão pequeninhas os padrões que deveríamos almejar e a necessidade de chegar neles para ter espaço, para ter afeto e para ter amor – inclusive o próprio. Não, a culpa não é sua por se sentir mal. Nada disso te define, mas mesmo que por um momento, fazem parte de você, então talvez aceitar isso colocando a culpa em quem merece me parece um bom espaço para parar de se machucar. Não deixe que te machuquem mais do que já machucaram. Pegue os porquês, chore um tempo se precisar e questione. Se conheça por dentro e questione.


Então, depois de tudo isso, de se questionar se você precisa mesmo seguir buscando por algo que não existe, depois de tirar a culpa dos seus ombros e depois de entender e internalizar o mais fundo possível que você não precisa entrar em mais essa caixinha, faça skincare se quiser. Compre seu produto – e prefira um feito a mão pela sua conhecida. E então se aproxime do mais livre que você puder ser. Ninguém se liberta sem conhecimento, o próprio e o do meio em que vive. Junte tudo que aprendeu sobre você e sobre o meio que te criou e use isso a seu favor, faça seu próprio caminho. Passe rímel para ficar em casa, tudo bem. Mas não ache que outra pessoa tem que fazer o mesmo para alcançar alguma outra coisa que nem sei. E não se ache pior sem rímel, veja além. Use anti-idade, mas perceba a arte que o tempo faz na pele. Aprecie também.


Não perca seu tempo convencendo ninguém de que isso ou aquilo é o melhor e mais correto, e não use a luta para diminuir ninguém. Eu duvido que alguma mulher hoje viva vá conseguir se livrar se todos os padrões ainda nessa vida, e me doeu muito aceitar isso. Todo dia é uma batalha e a gente faz o que pode com o que tem. Então não confunda o inimigo. Não queira libertar alguém impondo uma nova corrente. Libertação para mim pode ser diferente de libertação para você, entender os recortes é importante. Faça suas escolhas pessoais e respeite as escolhas alheias assumindo o papel que você quer defender no movimento coletivo. Propague informação e diálogo porque isso sim liberta. E não faça skincare se não quiser.






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© 2021 por Marina D. Soncini.

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